Por seforutil.com | Última atualização em 16/03/2026

Pesquisadores identificam aminoácido capaz de rejuvenescer o intestino, abrindo novas perspectivas para a saúde digestiva.
Visão geral
Novas descobertas podem representar uma alternativa promissora para reparar danos nos tecidos provocados por terapias como radiação e quimioterapia. Um estudo recente conduzido pelo MIT revelou que o consumo de alimentos ricos no aminoácido cisteína pode contribuir para restaurar e revitalizar o intestino delgado. Os cientistas observaram que a cisteína ativa uma via de sinalização imunológica que estimula as células-tronco a produzirem novo tecido intestinal.
Essa intensificação da regeneração celular pode auxiliar na recuperação de lesões causadas pela radiação, um efeito colateral frequente em pacientes submetidos a tratamentos oncológicos. Embora o estudo tenha sido realizado em camundongos, se resultados semelhantes forem confirmados em humanos, o aumento da ingestão de cisteína — por meio da alimentação ou de suplementos — poderá se tornar uma estratégia promissora para acelerar a cicatrização de tecidos, conforme apontado pela equipe de pesquisa.
“O estudo indica que, ao oferecer a esses pacientes uma dieta enriquecida com cisteína ou suplementação adequada, talvez seja possível reduzir parte dos danos provocados pela quimioterapia ou radioterapia”, explica Omer Yilmaz, diretor da Iniciativa de Células-Tronco do MIT, professor associado de biologia e integrante do Instituto Koch para Pesquisa Integrativa do Câncer. “O grande diferencial é que não se trata de uma substância sintética, mas de um composto natural presente na dieta.”
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que certos tipos de dietas, como as de baixa caloria, podem estimular a atividade das células-tronco intestinais. No entanto, este novo trabalho é o primeiro a identificar um nutriente específico capaz de promover diretamente a regeneração dessas células. Yilmaz foi o autor sênior do estudo, publicado em 1º de outubro de 2025 na revista Nature. O autor principal é Fangtao Chi, pesquisador de pós-doutorado do Instituto Koch.
Como a cisteína contribui para a regeneração das células-tronco?
É amplamente reconhecido que a alimentação exerce grande influência sobre a saúde. Dietas ricas em gordura estão associadas a doenças como obesidade, diabetes e distúrbios metabólicos, enquanto dietas com restrição calórica têm sido relacionadas ao aumento da longevidade em diversas espécies. Nos últimos anos, o laboratório de Yilmaz tem investigado como diferentes padrões alimentares afetam a renovação das células-tronco e descobriu que tanto dietas ricas em gordura quanto períodos curtos de jejum podem estimular a atividade dessas células por mecanismos distintos.
“Sabemos que dietas baseadas em macronutrientes — como as ricas em açúcar, gordura ou com baixa ingestão calórica — influenciam fortemente a saúde. No entanto, em um nível mais detalhado, ainda compreendemos pouco sobre como nutrientes específicos afetam as decisões das células-tronco e o funcionamento dos tecidos”, observa Yilmaz.
O papel da cisteína na ativação do sistema imunológico
No novo estudo, os cientistas alimentaram camundongos com dietas enriquecidas com cada um dos 20 aminoácidos que compõem as proteínas. Em seguida, avaliaram como cada dieta impactava a regeneração das células-tronco intestinais. Entre todos os aminoácidos testados, a cisteína apresentou os efeitos mais marcantes sobre as células-tronco e as células progenitoras — estas últimas responsáveis por se diferenciar em células intestinais maduras.
Pesquisas mais recentes mostraram que a cisteína desencadeia uma sequência de reações que culmina na ativação de um grupo específico de células imunológicas conhecidas como células T CD8. Quando as células que revestem o intestino absorvem a cisteína proveniente dos alimentos digeridos, elas a transformam em CoA, um cofator que é liberado na mucosa intestinal. Nesse ambiente, as células T CD8 captam a CoA, o que as estimula a se multiplicar e a produzir uma citocina chamada IL-22.
A IL-22 exerce uma função essencial na regulação da regeneração das células-tronco intestinais. No entanto, até recentemente, não se sabia que as células T CD8 eram capazes de produzi-la para impulsionar esse processo. Uma vez ativadas, essas células T produtoras de IL-22 ficam prontas para responder a qualquer tipo de dano que possa afetar o revestimento intestinal.
“O aspecto mais interessante é que oferecer aos camundongos uma dieta rica em cisteína promove a expansão de um grupo de células imunológicas que normalmente não associamos à produção de IL-22 nem à regulação da pluripotência intestinal”, afirma Yilmaz. “Com uma alimentação rica em cisteína, há um aumento significativo das células que produzem IL-22, especialmente das células T CD8.”
Essas células T tendem a se acumular no revestimento intestinal, permanecendo estrategicamente posicionadas para agir quando necessário. Os cientistas observaram que a ativação das células T CD8 ocorre predominantemente no intestino delgado, e não em outras regiões do sistema digestivo, o que provavelmente se deve ao fato de que a maior parte das proteínas ingeridas é absorvida nessa parte do intestino.
Reparação de danos intestinais
Neste trabalho, os pesquisadores demonstraram que a regeneração promovida por uma dieta rica em cisteína pode auxiliar na recuperação de lesões causadas pela radiação no revestimento intestinal. Além disso, em uma pesquisa ainda não publicada, verificaram que o consumo elevado de cisteína também apresentou efeito regenerativo após o uso do quimioterápico 5-fluorouracilo, medicamento utilizado no tratamento de câncer de cólon e de pâncreas, mas que pode causar danos ao tecido intestinal.
A cisteína está presente em diversos alimentos ricos em proteínas, como carnes, laticínios, leguminosas e nozes. O organismo também é capaz de produzir cisteína, convertendo o aminoácido metionina em cisteína — um processo que ocorre no fígado. No entanto, a cisteína sintetizada pelo corpo é distribuída de forma geral, sem gerar o mesmo acúmulo no intestino delgado que ocorre com a ingestão direta pela dieta.
“Com uma alimentação rica em cisteína, o intestino é o primeiro órgão a receber uma grande concentração dessa substância”, explica Chi.
Pesquisas anteriores já haviam indicado que a cisteína possui propriedades antioxidantes benéficas, mas este estudo é o primeiro a revelar seu papel na regeneração das células-tronco intestinais. Os cientistas agora pretendem investigar se ela também pode favorecer a regeneração de outros tipos de células-tronco. Em um estudo em andamento, estão analisando se a cisteína pode estimular o crescimento de novos folículos capilares.
Os pesquisadores também planejam aprofundar a análise de outros aminoácidos que parecem influenciar a regeneração celular. “Acredito que identificaremos diversos novos mecanismos pelos quais esses aminoácidos controlam as decisões sobre o destino celular e a manutenção da saúde intestinal, tanto no intestino delgado quanto no cólon”, conclui Yilmaz.
