Leiomioma

Por seforutil.com | Publicado em 27 de março de 2026

Foto de mulher deitada no sofá com dor

Entenda os aspectos clínicos, diagnóstico e principais abordagens terapêuticas do leiomioma, uma condição benigna que afeta o útero feminino.

Introdução

O leiomioma, também conhecido como mioma uterino, é o tumor benigno mais comum do trato genital feminino, originado do músculo liso do miométrio. Estima-se que entre 20% e 70% das mulheres em idade reprodutiva apresentem leiomiomas, sendo a prevalência maior entre 35 e 50 anos. Estudos epidemiológicos, como os publicados no American Journal of Obstetrics and Gynecology (Stewart et al., 2017), indicam que fatores genéticos, hormonais e ambientais desempenham papel fundamental em seu desenvolvimento.

Etiologia e fisiopatologia

Os leiomiomas são tumores monoclonais derivados de uma única célula muscular lisa que sofre mutações genéticas somáticas. As mutações mais frequentemente associadas envolvem o gene MED12, presente em até 70% dos casos, conforme descrito por Makinen et al. (2011) no Proceedings of the National Academy of Sciences. Alterações em genes como HMGA2FH e COL4A5-COL4A6 também foram identificadas em subtipos específicos.

A fisiopatologia envolve a interação entre hormônios esteroides (estrógeno e progesterona) e fatores de crescimento, como o TGF-βEGF e IGF, que estimulam a proliferação celular e a deposição de matriz extracelular. O crescimento dos leiomiomas é dependente de estrógeno e progesterona, o que explica sua regressão após a menopausa.

Classificação

De acordo com a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO)os leiomiomas são classificados conforme sua localização no útero:

Submucosos (tipos 0 a 2): projetam-se para a cavidade uterina.
Intramurais (tipo 3 a 5): localizados na parede uterina.
Subserosos (tipo 6 a 7): projetam-se para fora do útero.
Outros (tipo 8): incluem miomas cervicais e parasitários.

Essa classificação é essencial para o planejamento terapêutico e prognóstico.

Manifestações clínicas

Os sintomas variam conforme o tamanho, número e localização dos miomas. Os principais incluem:

Menorragia (sangramento menstrual excessivo).
Dor pélvica e sensação de pressão.
Aumento do volume abdominal.
Infertilidade ou abortos recorrentes.
Sintomas urinários e intestinais por compressão de órgãos adjacentes.

Estudos como o de Baird et al. (2003) no American Journal of Obstetrics and Gynecology demonstram que até 50% das mulheres com leiomiomas são assintomáticas.

Diagnóstico

O diagnóstico é baseado em avaliação clínica e exames de imagem.
Ultrassonografia transvaginal é o método de primeira linha, com sensibilidade superior a 90%.
Ressonância magnética (RM) é indicada para mapeamento detalhado, especialmente em casos de múltiplos miomas ou planejamento cirúrgico.
Histeroscopia é útil para avaliação de miomas submucosos e pode ser diagnóstica e terapêutica.

Marcadores laboratoriais não são específicos, mas podem auxiliar na exclusão de outras patologias, como o leiomiossarcoma.

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial inclui:

Adenomiose.
Pólipos endometriais.
Leiomiossarcoma.
Tumores ovarianos.
Gravidez molar.

A diferenciação entre leiomioma e leiomiossarcoma é crítica, sendo a RM e a análise histopatológica fundamentais.

Tratamento

O tratamento depende da idade, sintomas, desejo reprodutivo e características dos miomas.

Tratamento clínico

Anticoncepcionais hormonais combinados: reduzem o sangramento menstrual.
Análogos do GnRH: promovem hipoestrogenismo e redução temporária do volume tumoral.
Moduladores seletivos do receptor de progesterona (SPRMs): como o ulipristal acetato, demonstraram eficácia na redução do volume e controle do sangramento (Donnez et al., New England Journal of Medicine, 2012).
Antifibrinolíticos e anti-inflamatórios não esteroides: usados para controle sintomático.

Tratamento cirúrgico

Miomectomia: indicada para mulheres que desejam preservar a fertilidade. Pode ser realizada por via histeroscópica, laparoscópica ou laparotômica.
Histerectomia: tratamento definitivo, indicado para mulheres sem desejo reprodutivo.
Embolização das artérias uterinas (EAU): técnica minimamente invasiva que reduz o fluxo sanguíneo para os miomas, levando à necrose isquêmica. Estudos de Ravina et al. (1995) mostraram alta taxa de sucesso sintomático.
Ultrassom focalizado guiado por RM (MRgFUS): método não invasivo que utiliza energia térmica para ablação dos miomas.

Complicações

As principais complicações incluem:

Anemia por sangramento crônico.
Infertilidade e complicações gestacionais (abortos, parto prematuro).
Degeneração hialina, cística ou calcificada.
Rara transformação maligna (leiomiossarcoma), estimada em menos de 0,1% dos casos.

Prognóstico

O prognóstico é geralmente favorável. A recorrência após miomectomia ocorre em até 30% dos casos em cinco anos. A menopausa tende a promover regressão espontânea dos miomas devido à queda hormonal.

Conclusão

O leiomioma uterino é uma condição benigna, porém de grande impacto na saúde feminina. O avanço nas técnicas diagnósticas e terapêuticas permite abordagens cada vez mais individualizadas, com foco na preservação da fertilidade e na melhora da qualidade de vida. A compreensão dos mecanismos moleculares e hormonais envolvidos continua sendo objeto de intensa pesquisa, com perspectivas promissoras para terapias direcionadas e menos invasivas.


Referências:

Stewart EA et al. Uterine fibroids. Am J Obstet Gynecol. 2017;216(1):1–9.
Makinen N et al. MED12 mutations in uterine leiomyomas. Proc Natl Acad Sci USA. 2011;108(17): 6891–6896.
Baird DD et al. High cumulative incidence of uterine leiomyoma in black and white women. Am J Obstet Gynecol. 2003;188(1):100–107.
Donnez J et al. Ulipristal acetate versus leuprolide acetate for uterine fibroids. N Engl J Med. 2012;366(5):421–432.
Ravina JH et al. Arterial embolisation to treat uterine myomata. Lancet. 1995;346(8976):671–672.
FIGO Classification System for Uterine Leiomyomas. Int J Gynaecol Obstet. 2011;113(1):3–13.