Ácido Acetilsalicílico (AAS)

Por seforutil.com | Publicado em 28 de abril de 2026

Foto de 4 cartelas de comprimidos

Ácido acetilsalicílico (AAS): mecanismo de ação, indicações cardiovasculares, estudos recentes em oncologia, efeitos adversos e diretrizes atualizadas 2024-2025.

Introdução

O ácido acetilsalicílico (AAS), conhecido popularmente como aspirina, é um dos fármacos mais estudados e utilizados na história da medicina. Desde sua síntese em 1897 por Felix Hoffmann, na Bayer, o AAS tem sido amplamente empregado como analgésico, antipirético, anti-inflamatório e, principalmente, como agente antiplaquetário. Nos últimos anos, novas pesquisas têm ampliado o entendimento sobre seus mecanismos de ação, indicações terapêuticas e potenciais efeitos adversos.

Mecanismo de ação

O AAS atua inibindo irreversivelmente as enzimas ciclooxigenase-1 (COX-1) e ciclooxigenase-2 (COX-2), responsáveis pela conversão do ácido araquidônico em prostaglandinas e tromboxanos. Essa inibição reduz a inflamação, a dor e a febre, além de impedir a agregação plaquetária por bloquear a formação de tromboxano A₂. A ação antiplaquetária é prolongada, durando por toda a vida útil da plaqueta (7 a 10 dias).

Indicações terapêuticas

As principais indicações do AAS incluem:

Analgesia e antipirese: tratamento de dores leves a moderadas e febre.
Doenças inflamatórias: artrite reumatoide, osteoartrite e outras condições reumáticas.
Prevenção cardiovascular: prevenção secundária de infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico e doença arterial periférica.
Síndromes coronarianas agudas: uso imediato em casos de suspeita de infarto.
Prevenção de pré-eclâmpsia: em gestantes de alto risco, conforme diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG).

Evidências recentes em prevenção cardiovascular

Estudos recentes, como o ARRIVE (2018)ASCEND (2018) e ASPREE (2018), demonstraram que o uso do AAS na prevenção primária de eventos cardiovasculares oferece benefícios limitados e aumenta o risco de sangramentos gastrointestinais e intracranianos. Assim, diretrizes atuais da American Heart Association (AHA) e da European Society of Cardiology (ESC) recomendam seu uso apenas em prevenção secundária, ou em casos de alto risco cardiovascular cuidadosamente selecionados.

Uma meta-análise publicada no JAMA Network Open (2023) reforçou que a interrupção do AAS em pacientes com doença aterosclerótica estabelecida aumenta significativamente o risco de eventos cardiovasculares, destacando a importância da adesão contínua em prevenção secundária.

Uso em oncologia

Pesquisas recentes têm explorado o potencial papel do AAS na prevenção e no tratamento de neoplasias. Estudos observacionais e ensaios clínicos, como o publicado no New England Journal of Medicine (2024) pelo Instituto Karolinska, indicam que o uso diário de baixas doses de AAS pode reduzir a recorrência de câncer colorretal em pacientes com mutações no gene PIK3CA. No entanto, o uso oncológico ainda é considerado experimental e requer mais evidências antes de ser incorporado às diretrizes clínicas.

Farmacocinética e farmacodinâmica

Após administração oral, o AAS é rapidamente absorvido no trato gastrointestinal e hidrolisado a ácido salicílico, seu principal metabólito ativo. A meia-vida do AAS é curta (15 a 20 minutos), mas o efeito antiplaquetário persiste devido à inibição irreversível da COX-1 nas plaquetas. A eliminação ocorre predominantemente por via renal.

Efeitos adversos

Os efeitos adversos mais comuns incluem:

Dispepsia, dor abdominal e náuseas.
Úlceras gástricas e duodenais.
Sangramentos gastrointestinais e intracranianos.
Reações alérgicas, incluindo broncoespasmo em pacientes com asma induzida por AAS.
Síndrome de Reye em crianças e adolescentes com infecções virais, motivo pelo qual o uso pediátrico é restrito.

Contraindicações

O AAS é contraindicado em:

Hipersensibilidade ao ácido acetilsalicílico ou a outros salicilatos.
Úlcera péptica ativa.
Diátese hemorrágica.
Insuficiência hepática ou renal grave.
Gestação no terceiro trimestre (risco de fechamento prematuro do ducto arterioso fetal).

Interações medicamentosas

O AAS pode interagir com diversos fármacos, incluindo:

Anticoagulantes orais e heparinas: aumento do risco de sangramento.
Corticosteroides e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): potencialização da toxicidade gastrointestinal.
Inibidores da ECA e diuréticos: redução da eficácia antihipertensiva.
Metotrexato: aumento da toxicidade hematológica.

Novas perspectivas e pesquisas

Estudos recentes investigam o papel do AAS em:

Prevenção de demência e Alzheimer: resultados ainda inconclusivos.
COVID-19: pesquisas iniciais sugeriram possível benefício na redução de eventos trombóticos, mas revisões sistemáticas de 2023 não confirmaram eficácia significativa.
Cânceres sólidos: ensaios clínicos em andamento avaliam o impacto do AAS em câncer de mama, próstata e pulmão.

Conclusão

O ácido acetilsalicílico permanece como um dos pilares da farmacologia moderna, com eficácia comprovada na prevenção secundária de eventos cardiovasculares e potencial terapêutico em outras áreas médicas. No entanto, seu uso deve ser individualizado, considerando o equilíbrio entre benefícios e riscos hemorrágicos. As evidências mais recentes reforçam a importância de uma prescrição criteriosa e baseada em diretrizes atualizadas.


Referências:

✅ Gaziano JM et al. NEJM, 2018. ARRIVE Trial.
✅ Bowman L et al. NEJM, 2018. ASCEND Trial.
✅ McNeil JJ et al. NEJM, 2018. ASPREE Trial.
✅ Rothwell PM et al. Lancet, 2020. Long-term effects of aspirin on colorectal cancer.
✅ Karolinska Institute. NEJM, 2024. Aspirin and colorectal cancer recurrence.
✅ American Heart Association. Guidelines for the Primary Prevention of Cardiovascular Disease, 2023.
✅ European Society of Cardiology. ESC Guidelines on Cardiovascular Prevention, 2024.
✅ Bayer AG. 125 Years of Acetylsalicylic Acid, 2023.
✅ JAMA Network Open, 2023. Meta-analysis on aspirin discontinuation and cardiovascular risk.